Friday, July 03, 2009
Epílogo
A Catarina foi cedo para a casa dos avós e eu saí de casa para cuidar da cabeça, depois fazer outro tipo de terapia, a da modalidade sapatos novos, e então me vi repetindo um ritual de anos e anos e anos a fio: almoçar sozinha num restaurante, lendo, quieta e contente. Um saquê expressamente contraindicado pela medicina, porém mais que esperado, dada a ocasião, me fizeram acompanhar o Robbie Williams cantando no rádio do carro. Que eu sabia partes de uma música do Robbie Williams foi uma surpresa até para mim, ninguém vai conseguir se espantar mais do que eu, desistam. Hoje é o meu último dia no escritório.
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Dezesseis anos. Desde os dezenove. Mesmos caminhos, mesmas pessoas, mesmas vozes, mesmos cheiros, ano sim, ano também.
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Embora tão diferentes, melancolia pode sim rimar com alforria.
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"Why can't we overcome this wall? Well, maybe it's just because I didn't know you at all."
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Eu achava que a preparação mental de mais de dois anos é que estava garantindo que eu não tivesse tido ainda um momento "What the fuck am I doing?!". Mas não. É a certeza de que eu estou fazendo absofuckinglutely the best thing.
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"And I'm free, free fallin'..."
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Meu último dia.
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Uau.
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U-a-u.
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Phew!
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"Yeah I'm free, free fallin'!"
Thursday, July 02, 2009
Not stoppin' till you get enough
E aqui vai meu post Michael Jackson, que não conterá absolutamente nada sobre embranquecimento, drogas ou garotinhos.
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A Lúcia coleciona os utensílios de cozinha que a Caras "doa" toda semana. Hoje dona Catarina chegou do passeio com um exemplar nas mãos, correndo: - "Mamãe! Écsson!" - "É o Michael Jackson, filhinha?" - "Écsson! Aauuu!" Sim, esse "auuu!". A meia hora que se seguiu foi de dança, "pã-nã-nã-nã, pã-nã-nã-nã" e "auuuus" em profusão.
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Se vocês enjoarem desses posts, é só avisar. *pio de coruja*
Tuesday, June 30, 2009
Reinações de Catarina
De repente, não mais que de repente, o mundo passou a se dividir entre o que é abuuundo e o que é iiiimpo. O chão está abuuundo. A sola do sapato, abuuuunda. A mãozinha que pegou na sola também, mas, se lavada, fica iiimpa, iiiimpinha. Todo mundo ri, todo mundo acha lindo. Portanto, não falta incentivo. Meu pé sentiu o tiro no almoço de hoje, quando ela resolveu que não queria absolutamente nada do que estava no prato, tirando arroz pulo. Foi uma colherada, foram duas, e na terceira a Lúcia tentou dar feijão. Madame olhou para a colher e decretou: - "Não! Abuuuunda!"
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Se vocês ainda querem uma sobremesa, saboreiem o que ela disse ao ver um pedaço de frango que ficou desfiado pela faca: - "Abelo! Eco!"
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E já que começamos o post numa nota poética, preciso dizer que a minha filha, depois de ter me ouvido dizer a frase apenas uma vez, não pode mais escutar a palavra "agora" em tom de pergunta que completa: "Jô-gééé". Fato que já fez pelo menos três vítimas da vaidade da avó, para quem a neta já recita Drummond. Fecha aspas.
Wednesday, June 24, 2009
Conversarei sobre isso com a minha terapeuta
Eu sempre repito que nada mais me surpreende, etc., de tanto ser espectadora de barbaridades e também por conta da minha área de atuação. Aí, um belo dia, puf! Conseguem. Contas paralelas do Senado. Em português corrente, caixa-dois do Senado. Não de senadores, da instituição. Começo a pensar que deve ser salutar para a minha psique saber que sim, ainda posso me surpreender com algumas coisas. Deve ser bom, sim. Só pode. E boa tarde para vosotros também.
Tuesday, June 23, 2009
Não desejo para mãe nenhuma
Uim.
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A assimilação do conceito de ruim. Torçam para que seus filhos falem muito, falem tudo, mas passem ao largo do uim, porque uma vez que eles entendam o que isso significa, crescerá exponencialmente o risco de passarem a praticar o esporte de rejeitar todos os alimentos, para o deleite da sua (nossa) saúde mental. Eu tinha uma filha de excelente paladar, que aceitava tudo, amava caquis aos cinco meses, tomava sopa de peixe com tomates e erva doce, quase uma bouillabaisse infantil, na mesma idade, e que até hoje mastiga cebolinha verde! Que gostou de pequi, pelamor! Mas depois do advento do uim, meu mundo desmorona um pouco mais a cada dia. Hoje decidi me preocupar de verdade, depois de ela ter recusado, já na primeira colherada, a lasanha de beringela e abobrinha que sempre adorou. Uim. Temo, porque o meu esporte preferido é me preocupar, que a dieta dela esteja aos poucos se reduzindo a iogurte ("coco!", WTF?), potinhos de ameixa Nestlé, arroz e macarrão. Os últimos pulos, s'il vous plait.
[Estou exagerando de leve, outro esporte nacional, mas é fato que ela tem aceitado uma variedade cada vez menor de frutas e de comidas salgadas.] Vendo esse episódio do Momversation mais cedo, cheguei a cogitar comprar aquele livro da mulher do Seinfeld, o que recomenda misturar purê de beterraba com espinafre à massa do brownie. E eu sou filosoficamente contra isso. Por esta razão, peço encarecidamente a ajuda de outras mártires mães que já lidaram com fases parecidas para me mostrarem estratégias de guerra ou pelo menos me tranquilizarem. Eu passei um ano comendo apenas arroz com suco de tomate na infância. Karma is definitely a bitch.
Tin-tin!
Quem acompanha esse blog já deve ter percebido o estado de plenitude, digamos assim, do meu saco em relação à minha profissão. É que nos últimos anos os momentos de tensão predominaram bastante sobre os momentos de excitação. Aí quando acontece algo bom, aquilo que pode acontecer de melhor - uma absolvição - eu custo até a acreditar. E me lembro das coisas que me fazem gostar disso, afinal de contas. Acabei de absolver em segunda instância um cliente de um caso bacana, com teses de defesa bacanas. Ter ganhado de virada só aumenta o gosto. E foi a segunda absolvição esse mês. É tão raro, colegas de auditório, que chegou a render um toc-toc na madeira aqui.
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Nada mau para quem estará, em dez dias, oficialmente desempregada.
Friday, June 19, 2009
18 meses

Um ano e meio. Não é pouca coisa não, [f]ilha. Agora você já corre e escala os móveis, embora ainda não tenha entendido o conceito de velocípede e sempre se sente de ladinho, feito as heroínas de filmes da Jane Austen em seus cavalos. Melhor empurrar o bibí, né? Intão. Falar, você já fala ou tenta falar tudo. Ontem, por exemplo, quando eu descobri que a sua babá eletrônica tinha queimado e quis reclamar de um jeito que você não entendesse, ouvi de volta um "ép!" em eco ao meu "oooh, crap!". Bem feito pra mim. Você gosta de cantar e sabe todas as músicas do Cocoricó. De tanto ver a sua prima Anna cantarolar parlendas no YouTube, já sabe que "hoje é bingo, pé de imbo". Aprende tanto e tão rápido que incorporou um ar potiguar das suas cuidadoras e passou a pedir as coisas exclamando "me dêêêê!". Na verdade é "bidêêê!" mesmo, e você achou muita graça quando descobriu o que de fato era um bidê na casa do seu pai. Arranca cebolinhas do canteiro da sua avó e mastiga o dia inteiro, ficando com um bafinho matador. Sálvia também vai bem, lavanda vai mais que bem, já hortelã, nem tanto, a não ser na sua pasta de dentes nova: "leeeem! leeeem!". Aliás, escovar os dentes passou a ser um problema de novo, como no começo, porque agora a senhora quer fazer tudo sozinha, sorrindo orgulhosa. Passou a demonstrar muito interesse nos batons e esmaltes da mamãe. Em pincheeeel de maquiagem também. A pobre da gaveta de bijuterias é assaltada umas três vezes por dia. Haja desprendimento, mas tudo bem. Come pepino, cenoura e beterraba cruas e adora. Nada, entretanto, faz mais sucesso que o seu "minhão", seja ele cabelinho de anjo, estrelinha ou argolinha. Ovos de codorna não podem ficar à vista, para não dar em birra (depois do quarto). Café de colherinha, e sem açúcar (arrã, vovô!). No feriado, em São Paulo, gostou ainda mais depois de saber que dava para molhar pedacinhos de broa nele. Se vai na padaria, o "bidêêê!" não para até que o moço que corta os frios te dê dois ou três [char]utos. Já conhece o azul e o rosa das mamadeiras, amarelo, verde e vermelho também. O nome de montes de bichos, seus respectivos barulhos e carinhas (apesar de sempre insistir em chamar cavalo-marinho de arara). Todo livro e revista passa por grande inspeção, e você sempre ordena pede: "lêêêê!". Tem mais, tanto mais, mas é tudo tão rápido que ficou difícil de acompanhar. Mas não esqueço, não esqueço nunca, de como você é feliz e tranquila. De como é carinhosa e corre para dar beijos e baços de usso sem que ninguém precise pedir. De como acorda sorrindo toda manhã ("Bom dia, passarinho!" "Iiiinho!"). Da sua cara safada quando faz malandragem. Do cheiro do seu cabelo, da sua pele, dos seus cachinhos e da maciez dos dedinhos dos seus pés. E de como a vida é boa, é ótima ao seu lado, Ina. Por sinal, Cata... "ina!". Ses... "lho!". Caaar... "laaaf!"*.
* É pena que eu não posso botar o nome todo, todos os quatro nomes dela, porque vocês morreriam de rir com as combinações.
Tuesday, June 16, 2009
Debaixo dessa toga mora um coração
O tempo passou e com ele a oportunidade de escrever um pouco sobre o assassinato do médico George Tiller por um extremista do movimento "pró-vida" (vida fetal, evidentemente) americano. Segundo o que li, Tiller era o dono de uma das únicas três clínicas que realizam abortos no segundo e terceiro trimestres de gestação em todos os EUA. Pelas leis do Estado do Kansas, apenas situações de inviabilidade do feto ou de risco à saúde ou à vida da mãe, e desde que atestadas por dois médicos, autorizam o procedimento, mas o médico sempre foi pintado como um "baby killer" mercenário, disposto a fazer abortos em qualquer estágio da gravidez e pelos mais fúteis motivos que suas clientes conseguissem alegar. Após a sua morte, pipocaram pela Internet relatos dessas Medéias, que curiosamente viviam todas elas gestações muito desejadas, mas encerradas por conta de decisões terríveis precedidas por diagnósticos terríveis, seus ou de seus bebês. Além do óbvio, da violência do ato (o homicídio aconteceu dentro de uma igreja, durante um culto dominical, suprema ironia), da tolerância do americano médio diante de um movimento doméstico de feições indiscutivelmente terroristas, fiquei espantada com o que eu só posso chamar de deficiência do cuidado pré-natal nos EUA. Vários relatos de ex-pacientes diziam que elas haviam descoberto a spina bifida ou mesmo a anencefalia de seus fetos depois da 20ª semana de gravidez. Há uma série de malformações fetais que realmente só são descobertas na ultrassonografia morfológica do segundo trimestre, mas muitas delas (incompatíveis com a vida) podem ser visualizadas na morfológica do primeiro trimestre, feita entre a 11ª e a 13ª semanas. Como não ofereceram esse exame a essas mulheres como procedimento padrão? O que pode explicar a realização da primeira ecografia quando a gravidez já está na metade? Sofri ao imaginar quanta dor poderia ter sido evitada aos pais - e aos próprios fetos, por que não dizer? O assunto me voltou hoje porque acabei de ler essa notícia, de que o Tribunal de Justiça de São Paulo autorizou um aborto tardio, no sexto mês, de uma gestação de gêmeos xifópagos sem chances de sobrevida após o parto. A matéria ainda noticia um outro precedente, também de São Paulo, de uma gestação de feto portador de Trissomia do 18, ou Síndrome de Edwards (que pode ser diagnosticada por exames genéticos, mas nunca antes do término do primeiro trimestre, até onde eu sei). Não vou aqui enfrentar os argumentos tipicamente invocados em contrário. Todos eles recorrem a uma suposta origem "divina" da vida ou a uma necessidade de suportar estoicamente o sofrimento que o Aleatoriamente Misericordioso reserva para alguns dos seus. Fé não é fato, e assim como a dor da perda do sonho acalentado de um filho, é pessoal e intransferível, não cabendo a ninguém, ninguém mesmo, decidir sobre o destino que terceiros devem dar a suas gestações. O que eu queria dizer é que me incomoda terrivelmente o emprego da palavra "eugenia" em casos como esses. A interrupção de gestações marcadas por malformações graves e anomalias genéticas não busca a "purificação da raça" ou a "seleção dos melhores, dos perfeitos". Busca, ao custo de um imenso drama humano, evitar ou minorar o sofrimento de todos os envolvidos - incluindo o dos próprios fetos, é fundamental dizer. E ponto final. Falar em "aborto eugênico" é, na hipótese mais benigna, desinformação. No mais das vezes, é pura militância, que ninguém se iluda. O Brasil é capaz de discutir acaloradamente se a mãe de um feto sem cérebro, logo, sem a menor possibilidade de vida, pode ou não interromper sua gravidez. Imaginem em casos de trissomias ou de deformidades anatômicas severas como a desses gêmeos. Mas é exatamente por isso que eu recebi com alegria a notícia de que há juízes dispostos a enfrentar a realidade usando a razão e a compaixão, sem contaminar suas decisões com crenças ou idiossincrasias pessoais. Acho de uma crueldade desumana obrigar mulheres ou casais a prosseguir com gravidezes de fetos não saudáveis se eles assim não desejarem. Em qualquer caso. Que venham mais decisões corajosas assim, do nosso lado. E do lado de lá, que os fatores econômicos deixem de pesar mais que a saúde e o bem-estar de mães e fetos durante o pré-natal.
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